REVIEW: SAM SMITH TRANSFORMA VULNERABILIDADE EM LIBERDADE EM “HAZEL EYES”

Um álbum para sentir. Talvez seja essa a melhor definição para Hazel Eyes. Sam Smith coloca a voz no centro de tudo e, claro, que voz! É bonito acompanhar a forma como ele brinca com diferentes possibilidades ao longo das faixas, transitando entre vulnerabilidade, desejo, melancolia e esperança sem perder aquilo que faz sua voz ser tão reconhecível.

E talvez seja justamente aí que o álbum mais se aproxima do começo da carreira de Sam. Há algo nas baladas, nos arranjos mais acústicos e na maneira como as músicas deixam espaço para a interpretação que lembra aquele artista que conhecemos lá atrás. Mas Hazel Eyes não parece uma tentativa de voltar no tempo. Pelo contrário. Existe uma maturidade diferente aqui.

É um álbum mais introspectivo, que fala sobre liberdade, dúvidas, amor e esperança. E, mesmo quando fala sobre felicidade, existe uma melancolia atravessando tudo. Como se uma sensação não precisasse necessariamente excluir a outra. Sam parece confortável em deixar essas emoções coexistirem e é justamente sua voz que faz essa transição funcionar tão bem.

Em alguns momentos, ele está mais próximo, quase como se estivesse cantando diretamente para quem está ouvindo. Em outros, a voz cresce e ganha ainda mais espaço. Os corais presentes em diferentes momentos do álbum também ajudam a potencializar essa sensação, fazendo com que algumas das mensagens deixem de parecer tão individuais e ganhem uma dimensão maior.

A voz é o centro de tudo

Musicalmente, Hazel Eyes também passeia por diferentes caminhos sem perder essa essência. Há momentos mais acústicos, outros mais grandiosos e até algumas escolhas que parecem ter saído de uma trilha sonora antiga.

Sugar Rush foi uma das que mais me trouxe essa sensação. Existe algo quase cinematográfico na faixa, especialmente nos arranjos que lembram aquelas orquestras de filmes antigos. É uma escolha que quebra um pouco a expectativa e mostra que, mesmo quando se aproxima de uma sonoridade mais familiar, Sam não está simplesmente repetindo aquilo que já fez.

E é interessante pensar nisso porque o álbum chega em um momento muito diferente da carreira dele. Depois de experimentar diferentes sonoridades e imagens, Hazel Eyes parece menos preocupado em provar alguma coisa e mais interessado em contar o que Sam está vivendo e sentindo agora.

Até o título carrega essa intimidade. Hazel Eyes faz referência aos olhos cor de avelã de Christian Cowan, noivo de Sam Smith, e o relacionamento aparece como uma das inspirações para o álbum. E, sabendo disso, algumas das sensações presentes nas faixas parecem ganhar ainda mais sentido.

Principalmente quando chegamos a Love Is a Stillness. A música fala sobre descobrir no amor uma espécie de quietude, uma sensação de paz que Sam admite nunca ter conhecido. E talvez essa seja uma das imagens mais bonitas de todo o álbum porque é muito diferente da ideia de amor que marcou boa parte de sua discografia. O amor de Hazel Eyes não está necessariamente relacionado à dor ou à ausência. Ele também pode ser um lugar para descansar.

E isso torna o álbum ainda mais maduro.

A vulnerabilidade continua ali, mas agora existe uma outra perspectiva. Sam fala sobre desejo, intimidade e paixão, mas também sobre segurança, liberdade e sobre a possibilidade de simplesmente estar bem ao lado de alguém.

Ainda assim, Hazel Eyes não transforma essa felicidade em algo completamente cor-de-rosa. As dúvidas continuam aparecendo. A melancolia também. Existe uma sensação de que encontrar alguma forma de paz não significa deixar de ter medo ou de questionar as coisas.

Talvez seja justamente essa mistura que faça o álbum funcionar tão bem.

É vulnerável e maduro.

E quando tudo parece caminhar para o fim, To be Free chega como uma espécie de fechamento para tudo aquilo que Sam foi construindo ao longo das faixas. A música fala sobre liberdade e termina com um desejo simples: manter o coração aberto e não deixar que ninguém mude aquilo que você pensa. Depois de um álbum inteiro atravessando dúvidas, amor, desejo, vulnerabilidade e esperança, parece impossível imaginar um encerramento mais coerente.

É como se Sam Smith terminasse o álbum dizendo que sentir também é uma forma de liberdade. Sam Smith parece voltar para aquilo que sempre fez tão bem: transformar sentimentos em música. Só que agora ele faz isso de um lugar diferente. Mais seguro, maduro e livre. De fato, um álbum que vale o play e replay.

 

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